Mar, te mando.
Te amando. Ritmando.
quinta-feira, 26 de abril de 2012
M,
sábado, 7 de abril de 2012
M,
Não acredito em satisfações que se dão aos outros. Nada justifica o impulso. Nada forçado funciona. Inútil recorrer às chorumelas de águas passadas e planos pro futuro. A gente não sabe se vai morrer amanhã. Posso arrumar as malas e sumir da vida de todo mundo que já conheci até hoje, posso arquitetar a construção de uma identidade diferente de tudo o que me representa. Posso mudar. De opiniões e de atitudes. E será que vou fazer falta? Impossível saber. Nem a gente se conhece direito, como prever a intensidade dos próprios atos em situações inesperadas?
Apesar de tudo, as nossas metas não mudam. O que diferencia o antes do agora é a maneira com que busco essas metas. Mordi a língua. Mas não a consciência. Sei do que conquistei e me sinto segura o suficiente pra abandonar uma série de aflições. Porque a dificuldade virou rotina e isso é bom, porque cada pequeno brilho só aparece quando se faz merecer. Reviro minhas gavetas e me dá vontade de doar todos os penduricalhos que enfeitam minha máscara. Imagino que outras pessoas devam querer usá-los. Só sei do que não me serve mais.
Uma noite dessas, o tempo me encontrou sentada na areia e me deu algumas memórias de presente. Coisas que já estavam perdidas e coisas que mereciam reviver. Vi três estrelas cadentes em poucos minutos, falei três palavras que me vieram à mente. Não eram pedidos. Me acostumei a não pedir mais nada. A resposta já estava na minha frente há muito tempo: o equilíbrio das coisas está na mistura de doçura com intensidade. Se não estou plena dos outros, estou plena de mim. Confio no que me convém e acho que a maior proteção do mundo quem me dá sou eu. Me dôo (de doar, não de doer) como quem pula de um precipício com a certeza de que vai voar. Acho que cresci.
Sua, S.
domingo, 11 de março de 2012
M,
Sua, S.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
M,
Mas vamos aos fatos: esse cara colecionava sorrisos. Não sei até que ponto ele modelava a lembrança e convertia dentes e bocas em algo concreto e colecionável. Só sei que ele tinha um domínio tão completo sobre os sorrisos que parecia manter cada um deles em uma pequena caixa de cristal exposta em prateleiras dentro da própria cabeça. Passou a fazer da vida uma caçada: conquistaria sorrisos como quem conquista um território desconhecido. A cada item novo, ele ficava mais feliz e mais bonito. Me disse assim, sem pretensão nenhuma, enquanto olhávamos um daqueles rastros de nuvem que os aviões deixam no céu: “Todo dia eu pego o sorriso de alguém, ponho em uma caixinha e guardo na minha coleção”. Nunca questionei seus métodos. Apenas perguntei se ele havia pensado no meu sorriso alguma vez, como um item digno de suas prateleiras preciosas.
S.
sábado, 19 de novembro de 2011
M,
Se encontrar alguém que se disponha a segurar suas mãos, faça o favor de segurá-las.
Sua, S.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
M,
domingo, 9 de outubro de 2011
Ei, você. Lembra de quando a gente se viu pela primeira vez? Você tava voltando do colégio, um fim de tarde qualquer de 2ª série dos seus oito anos. Eu tava naquela loja de animais pela qual você sempre passava, sua mãe decidiu parar. Me pechinchou. Fui 5 reais. Você diria, a partir dali, que foram os 5 reais mais bem gastos da sua vida. Ganhei nome de compositor de música clássica, mas naquela época, pra você, era só um filme legal. Te vi aprender violão aos 15 anos, naquelas folhas cheias de mosquitinhos pretos, aí meu nome passou a fazer mais sentido. Parecia coisa que foi feita pra ser. Antes dos seus 15, antes de deitar na capa do seu violão sempre que você tocava e só sair quando a última música acabava, nós dois fomos filhotes juntos. Queria te dizer que eu detestava quando você me colocava naquela cestinha vermelha e saía me arrastando pela casa, mas era legal deixar você brincar de marionete comigo. Enjoamos das bolinhas de papel e das bonecas na mesma época. Você passou a ser meu travesseiro e eu passei a ser seu anjo-guarda-costas. Vi sua mãe sair de casa e não voltar mais, ficava me perguntando onde era que ela tava e quando ia ouvir alguém me chamando daquele jeito engraçado de novo. Só a vi uma vez, muitos anos depois. Você ficou maravilhada quando percebeu que a reconheci. Minha memória é tão boa quanto a sua, mesmo agora.
A casa já não era mais tão cheia, então, eu me orgulhava em ser sua sombra. Em cima dos livros, na porta do banheiro, na hora de dormir, vendo filmes, em frente ao monitor do seu computador, nas caixas de compras, em cima da impressora, nas malas feitas, nos pés da sua cadeira. Miava quando você se aproximava do portão, sem precisar sequer ouvir sua voz. Reconhecia o som dos seus passos e esse som foi ficando cada vez mais familiar, principalmente quando perdi a visão. Saía demais na minha juventude, uma dessas saídas me rendeu problemas nos olhos. Justamente nos olhos, que você se gabava de serem tão azuis. Me perdi de casa um dia, fiquei longe por mais de um mês, passei fome e fui ferido, mas consegui encontrar o caminho e entrei no seu quarto numa madrugada qualquer. Até esqueci a fome que sentia enquanto você me abraçava e chorava, dizendo que achava que nunca mais ia me ver. Lembro de você viajar nas férias e as minhas saídas ficarem mais frequentes quando você não estava em casa. Sua preocupação, estando longe, sempre foi grande. Mesmo tendo seus poucos dez anos, a intensidade com que você me apertava quando voltava de viagem me dizia o quanto você se preocupou. E a minha preocupação era mútua. Quantas vezes fiz vigília do seu lado enquanto esteve doente? Quantas vezes subi na sua cama enquanto você tava agarrada no travesseiro, fiz você olhar pra mim e lambi suas lágrimas? Quantas vezes subi na rede, mesmo sabendo que não devia fazer isso, quando você teve febre ou cólicas ou gripe forte ou qualquer coisa que te impedia de levantar? Quantas vezes fui expulso dessa mesma rede e fiquei deitado embaixo dela, só esperando a oportunidade de subir pra deitar com você de novo?
Cada detalhe desses aconteceu inúmeras vezes e cada uma delas passa diante dos meus olhos parcialmente cegos agora, enquanto você passa a mão pelo meu corpo magro e velho. Só consigo respirar e olhar pra você, não lembro mais como é o seu rosto exatamente, faz muito tempo que só vejo nuvens brancas. Tento lembrar de coisas boas, de você me colocando na janela e ficando lá um tempo comigo, só olhando o céu e as pessoas que passavam na rua. Tento lembrar de como fiz xixi na sua mala pra que você não viajasse ou de como fiz xixi no computador do seu pai quando você passou um final de semana fora. Sei que você busca lembrar disso também. Da minha mania recente de deitar em cima das suas costas (e até da sua bunda!) enquanto você estudava. De como eu me juntava ao seu pai e ia pro seu quarto com ele, porque nós dois tínhamos medo de trovão e você nunca teve. De como vocês enfaixavam minhas patas pra conseguir me levar pra vacinar, eu parecia um gatinho com gesso e me livrava de tudo na metade do caminho, arranhando todo mundo. De todas as vezes que deitei em cima do livro, justamente da parte que você estava lendo. De como eu gostava de chambinho e de milho verde. Do meu jeito de pedir leite, ficando parado na frente da geladeira até alguém resolver me atender. De como eu sempre subia na sua cama depois que você chegava da faculdade, sabendo que você iria ficar ali um tempinho olhando pro teto e abraçada comigo. De como eu sempre acertava o momento exato em que você ia dormir, esperava você apagar as luzes e empurrava você um pouquinho mais pra lá, pra que eu pudesse pegar um pouco do travesseiro ou então me apoiar nas suas pernas.
Nos últimos dias, você ficou doente e eu me senti estranho. Tentei subir na sua rede, como fiz milhares de vezes, mas você sentia muitas dores no corpo inteiro e não me deixaram deitar com você. Foi a última vez que tive forças pra tentar. Em épocas difíceis, fica complicado prestar atenção no gato, principalmente quando ele se esconde debaixo da mesa. Dias depois, quando saí e percebi o quanto você tinha ficado assustada ao ver como eu estava debilitado, fui preparando nossa despedida. Fiquei quietinho na ida ao veterinário, não reclamei dos remédios, não me mexi muito quando você me pôs na rede com você enquanto estudava. Quando cansava e ia pro cômodo vizinho, ficava deitado numa posição que desse pra olhar pra você no seu quarto. Você olhava pra mim e eu estava olhando pra você. Você deixava de olhar e eu continuava olhando. Estávamos nos preparando pro dia mais temido dos últimos 12 anos, mas nenhum de nós queria que chegasse. Ficamos próximos o máximo possível de tempo. Você parecia sentir quando eu não tinha forças pra me levantar e ir até você. Ia me buscar, passar a tarde deitada comigo enquanto lia qualquer coisa. Lutei até o último minuto, tentando caminhar e caindo, gemendo quando você tentava me ajudar e, por fim, me deixando levar pelos seus braços. Agora estou aqui, deitado, olhando pra você enquanto você mexe na minha barriga e dá um beijo na minha cabeça. Cada beijo e cada lambida, desde que éramos só uns filhotinhos, me vem à cabeça e me deixa um pouco mais quentinho nesse frio. Só consigo respirar e olhar pra você. Não consigo dizer o que quero, nem o quanto fui feliz enquanto estivemos juntos, mas consigo olhar fixamente pra você e sei que nada disso precisa ser dito. Minha respiração vai parando, seu rosto vai sumindo, não consigo ver mais nada. Suas lágrimas molham meu corpo enquanto você me aperta e me sacode, seus gritos poderiam me assustar em outros tempos. Mas já não escuto mais nada.
domingo, 11 de setembro de 2011
M,
Um beijo para o primeiro alvo dessa minha lista,
S.
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
M,
Ela ficava até tarde no escritório. Primeira a chegar, última a sair. Cercada por mesas vazias, lembrava constantemente de quando contava quantas carteiras e quantos cadernos imóveis existiam em salas de aula nos intervalos. Mochilas substituídas por pastas, sorvete no recreio substituído por café nos dez-minutos-entre-reuniões, tempo encostada no muro esperando ônibus substituído por tempo aborrecido enfrentando engarrafamento. É o preço que se paga por crescer. Enquanto interpretava o seu papel de Mulher-Profissional-Bem-Resolvida-e-Independente, espalhando pelo mundo exemplos de profissionalismo e sendo até chata às vezes, quando interrompia um lanche com amigos pra falar de assuntos de trabalho, ela passava pelos dias como quem se desespera pra chegar a um lugar que não se sabe qual é. O desespero, ao longo dos anos, foi atropelando tudo e levando muita gente que não era pra levar. E ela continuava sem saber aonde queria chegar.
Um dia, ela encontrou uma mocinha ruiva que lhe deu um balão. Era vermelho. Sua memória, péssima nas ocasiões mais necessárias, nunca ia lembrar da primeira frase trocada. Ou mesmo da circunstância do encontro. Ela só sabe que aconteceu, o momento do balão, pá, ali.
Beijos,
S.
terça-feira, 26 de julho de 2011
M,
Sua, S.